Desafios da Educação Física escolar no retorno das aulas presenciais

Nesta metade de 2020, o Brasil está lidando com duas crises ao mesmo tempo, que tornam difíceis as decisões a serem tomadas pela sociedade, pois a decisão sobre uma crise afeta a outra. São elas: a crise sanitária, devido à COVID19, e a crise econômica, influenciada pelas decisões de se combater a primeira, bem como pelos problemas políticos da atualidade.

 

 

Após adquirir um pouco de experiência com relação às medidas para combater o avanço do vírus, até o surgimento de alguma vacina, todas as medidas tomadas até o momento presente fazem com que diversos estados brasileiros comecem a organizar o retorno das atividades escolares no segundo semestre. E as duas perguntas que podemos fazer são: Como preparar a escola para esse retorno? Quais as principais dificuldades que enfrentaremos?

 

O retorno das atividades escolares será possível com a adoção de sérias medidas de segurança, além dos ajustes com relação ao fluxo de pessoas. As escolas adotarão um modelo híbrido temporário, isto é, mesclando atividades em ambiente virtual com atividades presenciais. Além disso, será necessária uma divisão das turmas para que sejam respeitadas as regras de distanciamento, seja dentro ou fora da sala de aula.

 

Nas aulas de Educação Física não vai ser diferente. Os professores terão que planejar atividades um pouco mais individualizadas, e que evitem o contato físico. E aqui está o primeiro grande desafio da Educação Física escolar: ter o material necessário e suficiente para garantir a segurança de todos os estudantes.

 

Diferentemente das outras disciplinas, a Educação Física nunca dispôs de todos os recursos necessários para proporcionar a mesma experiência a todos os estudantes. Poucos materiais esportivos, em sua maioria, bem desgastados, fazem com que os professores usem e abusem de sua criatividade na hora de utilizar materiais alternativos, na tentativa de criar uma aula dinâmica com os poucos recursos que eles têm à mão.

 

Porém, neste momento de pandemia, para a segurança dos alunos e para que o professor tenha as condições adequadas para trabalhar, é necessário que escolas, instituições e secretarias de educação invistam também em recursos para a Educação Física escolar. Tal qual um estudante precisa de um lápis, uma borracha, uma caneta e um caderno para poder estudar, é um direito que cada um tenha à sua disponibilidade materiais para que possa praticar esportes e realizar atividades físicas. A Educação Física, sendo relevante na formação humana, durante esta pandemia, tem ainda um papel muito importante.

 

O maior problema do novo coronavírus é o seu impacto sobre pessoas que estão no grupo de risco. Esse grupo é composto por sedentários, obesos, hipertensos, cardiopatas, diabéticos etc. Para amenizar os impactos de alguma outra pandemia no futuro, é indispensável que possamos diminuir a quantidade de pessoas que se encontram com essas comorbidades. A prática de exercícios é o remédio gratuito mais eficiente para combater todos esses males, e o despertar para essa prática começa na escola.

 

Além do mais, a prática de atividade física é importante para amenizar os problemas psicológicos que a pandemia atual está causando. Mas, como fazer com que as crianças gostem de praticar atividade física, sem os recursos adequados para isso? Seria a mesma coisa que querer alfabetizar uma criança sem usar papel e caneta. Impossível? Não. Mas seria muito mais trabalhoso.

 

Todos nós sabemos da importância da Educação Física para a educação, bem como de sua relevância para a escola. No entanto, este é um momento de focarmos todas as atenções a fim de reduzir os impactos do novo coronavírus, e também em políticas públicas para a saúde.

 

A falta de recursos esportivos nas escolas será o primeiro grande desafio dos professores de Educação Física. Não municiar esses profissionais poderá deixar a Educação Física em segundo plano no retorno das atividades escolares, devido à falta de segurança. E a falta de atividade física, neste momento, somada à falta de uma Educação Física que leve o estudante a se apaixonar pela prática esportiva, poderá, a longo prazo, fazer com que a próxima pandemia (que venha a ocorrer no mundo) cause mais estragos do que a que estamos vivenciando agora. Pensemos em nossas crianças na escola. Como diria Milton Nascimento, “Há que se cuidar do broto, para que a vida nos dê flor e fruto.”

 

Professor Me. Marcos Antônio Fari Júnior

 

Coordenador pedagógico da Guarani Sport e autor dos livros infantis da Turma do Júnior, coleção que democratiza o acesso de crianças e adolescentes ao universo esportivo. Professor universitário com especialização em Musculação e Condicionamento Físico, é também mestre em Educação. Possui 10 anos de experiência como educador físico, atuando também com o treinamento de voleibol de rendimento.

 

 


 

 

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