Uma breve história sobre a psicomotricidade e a trajetória da Professora Rosimeri Pavanati

A principal contribuição que considero ter deixado ao país por intermédio do Sesc – e naturalmente também trazida comigo – foi o projeto Aples (Atividades Psicomotoras, Lúdicas e Esportivas), uma proposta de ensino esportivo para crianças, que é baseada na psicomotricidade. Sob minha responsabilidade técnica e acadêmica, foram implantados a filosofia e os princípios técnico-pedagógicos da proposta em praticamente todo o país, com o apoio dos gestores, reconhecendo os resultados bem-sucedidos de adesão e retenção das crianças no programa esportivo e os relatos de sucesso dos pais e professores sobre a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos.

 

O sucesso foi tão evidente que muitos professores se ressentiam de não ter um instrumento que pudesse avaliar e registrar concretamente os resultados alcançados, e assim construímos a BAP. Foi criado um GT com profissionais do Sesc que, sob minha responsabilidade, foram preparados e orientados na construção da BAP – Bateria de Avaliação Psicomotora de 4 a 6 anos, para o primeiro nível do programa de esportes, a qual ficou pronta para edição em 2017, antes do desligamento da instituição, sendo a obra impressa e distribuída ao Sesc de todos os estados no ano seguinte, em 2018.

 

Em 2009, fora do Sesc, sobre uma consultoria na produção de esporte para crianças, vale mencionar o convite da editora Casa da Palavra, atual LeYa, para trabalhar no livro Manual do pequeno atleta, incrementando o aspecto pedagógico a fim de posicioná-lo como material didático escolar. Essa contribuição foi tão enriquecedora quanto o aprendizado da obra, envolvendo atletas, editores, COB e jornalistas, os quais me surpreenderem positivamente sobre a linha de compreensão pedagógica.

 

Em minha trajetória, a vida com a educação começou cedo, aos 16 anos. Eu era uma menina encantada como monitora de educação infantil, aplicando com as crianças de 4 a 6 anos o melhor do que eu estava ainda aprendendo no curso de Pedagogia de 1ª a 4ª série, no ensino médio2. A graduação em Educação Física seria a próxima etapa. Aprovada no vestibular em 1985, ingressei na FUCRI3 , em Criciúma, hoje UNESC – Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina. E, para custear a faculdade, saí da monitoria na educação infantil para assumir aulas de Educação Física no ensino especial da Apae de Tubarão.

 

Era 1985, a década em que a psicomotricidade chegava com força ao Brasil trazendo um mundo de possibilidades para o desenvolvimento infantil por meio da educação psicomotora. Na APAE encontrei um tesouro, pois eles possuíam uma biblioteca que era um templo da literatura na área de psicomotricidade, com tudo o que tinha de mais valorizado em neurociência, psicologia e práticas psicomotoras (alguns livros ainda tinham traduções somente em espanhol). Possivelmente, nessa biblioteca, eu tenha ocupado mais tempo de estudos do que na faculdade. Curiosamente, creio que foi por legado desses estudos que leio fluentemente em espanhol, sem conseguir falar o básico. Foi assim, com material à vontade para estudar, e com alunos precisando muito de minha dedicação, que a psicomotricidade deu sentido a tudo associado à Educação Física, e determinou muito na minha vida profissional.

 

Durante a faculdade, nos anos seguintes, ministrei aulas de Educação Física para crianças na rede pública5 . Ao concluir a graduação, em 1988, tive a grata surpresa de ser aprovada em primeiro lugar no concurso público da rede municipal de Criciúma. Mas, paralelamente, recebi o convite para assumir a Coordenação da Educação Física Municipal em Tubarão. Honrada com a oportunidade, passei a fazer parte da equipe daquela Secretaria de Educação6 . Foi um desafio preocupante, na minha condição de recém formada, coordenar toda a equipe de profissionais da área, mas logo se tornou confortável e prazeroso, sobretudo promover eventos como as Ruas de Lazer e incentivar as apresentações folclóricas.

 

O mais memorável dessa época foram as capacitações bimestrais em educação psicomotora para professores de 1ª a 4ª série que atuavam nas escolas da zona rural e, dentre muitas atribuições, tinham que ministrar também a Educação Física para seus alunos. Esses professores executavam, na prática, todas as atividades previstas no planejamento. O grupo era receptivo e aguardava ansiosamente por esses momentos lúdicos, alegando serem as vivências mais divertidas da profissão.

 

A próxima etapa levou-me ao Rio de Janeiro em 1991, nos períodos de férias, para cursar minha primeira especialização em Bases Biomédicas para Atividade Física, na Universidade Gama Filho7 . E, no ano seguinte, a mudança para a cidade maravilhosa foi definitiva, ao ser aprovada em quarto lugar no mestrado em Pedagogia do Movimento Humano8 . Era um sonho se realizando, pois a Universidade Gama Filho despontava com conceito A no seu mestrado junto ao MEC e, com essa classificação, eu estava elegível à bolsa de estudos pela Capes/CNPq.

 

Em ambos os cursos, naquela instituição, de especialização e mestrado, optei por pesquisa experimental ligada à percepção, aprendizagem e motricidade. Você podia escolher no que se dedicar em seu estudo, mas seu projeto de pesquisa deveria ser muito consistente para conquistar um orientador. Esses temas de pesquisa não eram muito comuns na Educação Física e foi um processo, pois muitos se candidataram, mas explicavam que pouco poderiam ajudar na parte técnica. Mas o psicólogo Dr. Olavo Feijó9 , entusiasmado com projeto, aceitou a orientação, o que acabou rendendo uma aprovação com louvor por parte da banca.

 

Com as pesquisas no campo experimental, eu testava minhas próprias crenças. Gostava de verificar se as premissas da neurociência que tanto me seduziram eram reais, já que a formação em Educação Física se mostrava tão alheia, e tais verdades exigiam uma responsabilidade com o conteúdo diferenciado da minha expectativa e do senso comum. Desse modo, na especialização, avaliei o nível percepto-motor em crianças na fase de alfabetização que apresentavam dificuldades na classe; e, na dissertação de mestrado, apliquei um programa de estimulação percepto-motora, verificando se haveria alteração positiva no desempenho do grupo experimental.

 

Ambos os estudos confirmaram as hipóteses: o primeiro mostrou que crianças com maior dificuldade escolar também se apresentaram aquém nas habilidades perceto-motoras; o segundo comprovou que um programa de estimulação melhora significativamente o desempenho percepto-motor comparado às crianças que não participaram do programa.

 

Ao concluir o mestrado, encerrou-se a bolsa de estudos, e, ao sair de Tubarão, tive que me desligar dos meus empregos, ou seja, da Coordenação Pedagógica em Educação Física no Município, e também das aulas de ginástica que eu conduzia à noite como locatária na unidade do Sesc.

 

Nas buscas por uma colocação no Rio de Janeiro, o classificado do jornal O Globo, em um anúncio anônimo, divulgava na área de Educação Física uma oportunidade tão fantástica, que parecia ser “boa demais para ser verdade”, e era só uma vaga. Sim, era o melhor emprego que eu poderia estimar, selecionada em primeiro lugar, em outubro de 1994, um mês após concluir o mestrado, iniciando uma jornada de 24 anos de vida profissional excitantes e intensos. Era o Departamento Nacional do Sesc10 . Esse lugar também era mais um tesouro, só que espalhado em todo canto deste país, em que vivi frequentando das capitais aos locais mais recônditos.

 

Estudei, ministrei horas incontáveis de cursos presenciais e a distância11; participei de congressos e estágios nacionais e internacionais privilegiados, estabelecendo relações especiais com ícones da área, como David Gallahue e Victor da Fonseca. Indo a Londres conhecer o legado das olimpíadas na educação pública, tive a oportunidade de contratar as melhores mentalidades do país para ministrar cursos e desenvolver projetos que coordenei, vivenciando trabalhos com entidades respeitadas como ONU, UNESCO, ONGs, universidades, órgãos governamentais e Sesi, em tantas ricas situações que não caberiam numa apresentação.

 

Fui classificada para consultoria ao MEC, em 2012, como especialista na consolidação da proposta pedagógica para o ensino fundamental, na área de Educação Física para o ciclo de alfabetização. Essa experiência curiosamente me permitiu amadurecer posicionamentos pessoais que divergiam do movimento dominante para a área de Educação Física. Convicções que se alinham melhor com o momento atual, que procura se acomodar aos avanços científicos da neurociência e acolhe conhecimentos também da biologia, aos quais meus estudos sempre estiveram ligados pelo desenvolvimento infantil e a psicomotricidade.

 

Junto a tudo isso, tenho minha experiência como terapeuta, que teve início com a conclusão do mestrado. Foi quando a especialista responsável pela avaliação das crianças submetidas ao grupo experimental e de controle da minha dissertação, Niobe Santos, convidou-me para integrar sua equipe. Dois anos depois, em 1996, a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade concedeu-me o título de psicomotricidade mediante um dossiê comprobatório de estudos e experiências práticas elegíveis aos critérios estabelecidos, sendo reconhecida como psicomotricista, com o título nº 178ª, concedido pela mesma sociedade. No consultório, a busca pela eficácia no desempenho das crianças com dificuldades escolares me manteve ligada à educação em constante compromisso de aperfeiçoamento. A busca por ajuda em habilidades cognitivas e emocionais tem crescido também por adolescentes e adultos.

 

Dentre os estudos que alimentaram a atuação profissional, destaco o curso de Neuropsicologia Aplicada, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2004. Também a especialização lato sensu em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), pelo CBI of Miami, no qual me dedico há um ano, seguindo em curso até 2021.

 

Concluir o ciclo no SESC foi motivado por uma oportunidade e a necessidade de seguir trabalhando em projetos que demandariam tempo extra e autonomia, inclusive em organizar conteúdos e produzir materiais que auxiliem na aplicação de uma boa educação psicomotora. Sobretudo para suprir as necessidades com que me deparei na própria implantação do Aples de 4 a 6 anos, que demanda muito conhecimento e materiais da área perceptivo-motora. Isso contribuiu muito com a implantação do acervo da Guarani Sport, que tinha tanto a literatura quanto os materiais esportivos alinhados à sua metodologia, em especial, para o segundo nível, de 7 a 10 anos.

 

Hoje, a convite da própria Guarani Sport, unimos desejos e esforços para criar exatamente o que lhe demandava. Assim, estou trabalhando na produção de um livro de fundamentação em psicomotricidade, que será complementado com um manual de planejamento didático, além de matareis para subsidiar a educação de corpo e movimento na Educação Física, na educação infantil, em programas esportivos e em todos os espaços que valorizem o desenvolvimento infantil de qualidade.

 

Seguem menções de reconhecimento a respeito da competência técnica durante o trabalho no Sesc, com agradecimentos dentro e fora da instituição; lembranças que acalentam ao recordar e fazem sentir que “tudo valeu muito a pena”. Com a alegria de uma missão cumprida, registrada nas homenagens institucionais calorosas na ocasião do desligamento, iniciou-se, então, uma nova etapa que desejo honrar.

 

Que a força divina me ajude a superar os novos desafios, uma vez que, junto à oportunidade, acompanha a aflição de que o esforço e as condições estejam à altura missão!

 

 

 

Prof.ª Ms. Rosimeri Pavanati

 

 

Psicomotricista, Professora de Educação Física, Mestre em Pedagogia do Movimento Humano pela Universidade Gama Filho – UGF, especialista em bases biomédicas da atividade física, especialista em psiconeurologia, é Terapeuta em Desenvolvimento infantil e performance humana. Foi técnica em Lazer e Esporte no Sesc Nacional durante 20 anos, implantou a iniciação esportiva Aples em todo Sesc Nacional.

 


 

 

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