RESSIGNIFICAR A ESCOLA

Cultivando o hábito de levar sempre adiante nosso programa pedagógico esportivo para os mais diversos recantos do Brasil, estamos tendo a oportunidade de dialogar com muitos dirigentes de educação, dos mais variados níveis, desde Secretários e Secretárias Estaduais e Municipais de Educação, Prefeitos e Prefeitas, Coordenadores e Professores, e isto nos tem possibilitado entender quais são os maiores desafios enfrentados pela Escola no Brasil, enquanto instituição, já há cerca de 20 anos.

 

Para além da questão da pandemia e a crise sanitária desencadeada pela COVID-19, que atinge todo o planeta, ainda temos no Brasil outros problemas que deixam ainda mais complexo o quadro que já era conturbado: a indefinição do papel da escola. Confunde-se uma série de conceitos e invertem-se prioridades ao sabor de propostas ditas inovadoras, tecnológicas e revolucionárias, assoberbando nossos estudantes com conteúdos e mais conteúdos, como se nossas crianças e adolescentes fossem máquinas, dentro de uma sala de aula, sentados em suas carteiras escolares por mais de cinco mil horas de educação bancária, ao longo dos anos que abrangem o ensino fundamental e médio, tendo o estudante como agente passivo do processo.

 

Já passou da hora desse modelo atrasado ser superado, e o momento talvez seja agora. Com a pandemia, as novas formas de atender as demandas por ensino estão se modificando e a instituição escola passa por um enfraquecimento sem precedentes. Do ponto de vista da transmissão de conteúdos, pura e simplesmente, a escola conteudista-bancária passa a ser vista como desnecessária, pois as plataformas podem substituí-la facilmente, sem que haja necessidade do seu funcionamento. Nenhuma escola no mundo tem a capacidade de acompanhar plataformas como Google ou YouTube, que podem tranquilamente exercer o papel de repassadoras de conteúdo, caso a escola não reaja em sua forma de atuação.

 

 

A ótica da Escola Nova

 

Na visão dos educadores da Escola Nova, desde Cecília Meireles, Aluísio Azevedo, Florestan Fernandes, Anísio Teixeira e tantos outros, a escola bancária e conteudista já deveria ter sido suplantada há mais de meio século. Esse modelo de escola já demonstra estar saturado desde tempos atrás. Então, que Escola queremos?

 

 

Estrategicamente, a visão que mais nos parece adequada seria seguir um novo modelo, que pudesse privilegiar as atividades vivenciais, aquelas que têm o poder de fazer a criança se desenvolver integralmente, com assimilação de habilidades físicas, intelectuais e socioemocionais. Desde a mais tenra idade escolar, a criança deve ser impelida ao movimento, à socialização e à descoberta de potencialidades e habilidades próprias, por meio da promoção do autoconhecimento. Esportes de quadra, esportes de aventura, jogos, teatro, artes plásticas, música e vivências múltiplas devem fazer da escola um local vivo, um centro de criatividade e movimento, incentivando o desenvolvimento das potencialidades, e não se limitando apenas a repassar regras e conceitos arcaicos.

 

Uma nova arquitetura é necessária, pois a própria estrutura física da escola demanda novos olhares e perspectivas mais amplas. Ao pensar em uma escola hoje no Brasil, precisamos visualizar um lócus que ofereça um mínimo de conforto e satisfação, onde o estudante possa passar o dia inteiro ou parte dele, de maneira que, ao acordar pela manhã, queira retornar à escola.

 

Resgatando o mundo natural

 

Algumas iniciativas têm feito mudanças, porém ainda estamos longe. A escola precisa ser uma representação do mundo real, e o mundo real não é composto apenas de concreto. As crianças de hoje necessitam de um mínimo de contato com o mundo natural, principalmente nas grandes cidades, onde o processo de urbanização retirou das novas gerações esse contato primordial, limitando demais o acesso aos espaços, tolhendo as crianças de amplitude, pois para onde olham só veem paredes.

 

 

Já na perspectiva da base curricular, os conteúdos podem ser diluídos em atividades multitemáticas. Uma atividade em quadra pode ter conteúdos de matemática e física e até mesmo de empreendedorismo. Outra atividade em um jardim ou horta tem potencial para uma aula de ciências naturais com possibilidades infinitas. É incrível o que tem acontecido nos países onde as escolas adotam atividades multidisciplinares, quando os professores trabalham em conjunto suas disciplinas dentro de uma temática comum e mais ampla, que propõem resolução de problemas e cumprimento de tarefas individuais e coletivas, indo das mais simples às mais complexas, como na Finlândia, por exemplo.

 

 

 

Os investimentos em educação no Brasil, apesar de insuficientes, são bastante expressivos; no entanto, a questão maior a ser debatida é onde investir os recursos. Parece-me que, além de aumentar os investimentos, precisamos urgentemente fazer fortes mudanças na dinâmica da educação pública brasileira, sob pena de as escolas serem substituídas pelas plataformas virtuais – e a primazia de educar nossos filhos ser transferida para as Plataformas Centrais, as quais nada têm de interesse sobre as nossas necessidades, nossa cultura e nossas prioridades locais.

 

Ou a Escola muda, ou deixa de existir enquanto instituição tal como a conhecemos. Ou ela se torna o centro gravitacional da comunidade, ou será esquecida dentro de algumas décadas, deixando para trás um imenso vazio na formação dos nossos jovens, e o poder de influência advindo dos processos educacionais será transferido ainda mais para as plataformas de conteúdo, mídias sociais e outras forças hegemônicas, destituindo-nos da determinação dos nossos caminhos enquanto nação.

 

Marcos Fernando Luiz
Economista pela UFSC
Desenvolvedor do Programa Cultivar

 

 

 

 

 


 

 

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