Uma breve história sobre a psicomotricidade e a trajetória da Professora Rosimeri Pavanati

Minha principal contribuição após 24 anos no Sesc Nacional foi o projeto Aples (Atividades Psicomotoras, Lúdicas e Esportivas), uma proposta de ensino esportivo para crianças, baseada na psicomotricidade. Sob minha responsabilidade técnica e acadêmica foram implantados a filosofia e os princípios técnico-pedagógicos em praticamente todo o país, com o apoio dos gestores, reconhecendo os resultados bem-sucedidos de adesão e retenção das crianças.

 

O sucesso foi tão positivo no programa esportivo, com frequentes relatos de sucesso sobre a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos, que muitos professores se ressentiam de não ter um instrumento que pudesse avaliar e registrar concretamente os resultados alcançados, o que resultou na construção da BAP – Bateria de Avaliação Psicomotora. Sob minha condução, foi criado um GT com profissionais do Sesc, que foram preparados e orientados na construção da BAP – Bateria de Avaliação Psicomotora de 4 a 6 anos, para o primeiro nível do programa de esportes. A mesma ficou pronta para edição em 2017, antes do meu desligamento da instituição, sendo a obra distribuída ao Sesc de todos os estados no ano seguinte, em 2018.

 

Em 2009, realizei uma consultoria na produção esportiva para crianças a convite da editora Casa da Palavra, atual LeYa, para incrementar o livro Manual do Pequeno Atleta, no aspecto pedagógico. O aprendizado com a obra, que envolveu atletas, editores, COB e jornalistas, surpreendeume com uma compreensão pedagógica expressa, permitindo-me observar as percepções sobre o esporte educativo a partir da mentalidade também desses profissionais.

 

Minha vivência com a educação começou cedo, aos 17 anos. Estando encantada com a monitoria na educação infantil, aplicava com as crianças de 4 a 6 anos o melhor que eu aprendia no curso de Pedagogia. A graduação em Educação Física seria a próxima etapa, ingressando em 1985, na FUCRI em Criciúma, hoje UNESC – Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina. Para custear a faculdade, assumi aulas de Educação Física no ensino especial da APAE de Tubarão, justamente nos anos 80, quando a psicomotricidade havia chegado com força ao Brasil, trazendo um mundo de possibilidades para o desenvolvimento infantil por meio da educação psicomotora.

 

Na APAE encontrei um tesouro, pois possuíam uma biblioteca especializada na área de psicomotricidade, com o que havia de melhor em neurociência, psicologia e práticas psicomotoras. Possivelmente, nessa biblioteca, eu tenha dedicado mais tempo aos estudos do que na faculdade. Foi assim, com amplo material de estudo e com alunos carecendo de minha dedicação, que a psicomotricidade deu sentido a tudo associado à Educação Física, havendo influenciado para sempre minha vida profissional.

 

Durante a faculdade, ministrei também aulas de Educação Física para crianças da rede pública e, ao concluir a graduação, em 1988, fui convidada para assumir a Coordenação da Educação Física Municipal em Tubarão. Honrada com a oportunidade, passei por um desafio arrojado devido à minha condição de recém-formada. Mas coordenar toda a equipe de profissionais da área logo se tornou prazeroso, sobretudo porque incluía a promoção de eventos como as Ruas de Lazer, e pude incentivar danças e apresentações folclóricas. No entanto, o mais memorável dessa época foram as capacitações em educação psicomotora para professores de ensino básico, os quais atuavam nas escolas da zona rural e tinham que, entre as muitas atribuições, ministrar a Educação Física a seus alunos. Eu conduzia as capacitações aos professores que executavam, na prática, todas as atividades previstas no planejamento. O grupo era receptivo e aguardava ansiosamente por esses momentos lúdicos, pois os consideravam como as vivências mais divertidas de sua rotina profissional.

 

A próxima etapa levou-me ao Rio de Janeiro em 1991, nos períodos de férias, para cursar a primeira especialização em Bases Biomédicas para Atividade Física, na Universidade Gama Filho. No ano seguinte, ao ser aprovada para cursar o mestrado em Pedagogia do Movimento Humano, a mudança para a Cidade Maravilhosa foi definitiva. Um sonho se realizava, pois o mestrado da Universidade Gama Filho despontava com o maior conceito junto ao MEC.

 

Naquela instituição, em ambos os cursos de especialização e mestrado em Educação Física, optei por uma pesquisa experimental ligada à percepção, aprendizagem e motricidade. Podia-se escolher a área a se dedicar em seu estudo, mas o projeto de pesquisa deveria ser muito consistente para atrair um orientador. Esses temas de pesquisa não eram comuns na Educação Física, e foi difícil conseguir um orientador que pudesse ajudar na parte técnica. Entretanto, o psicólogo Dr. Olavo Feijó entusiasmou-se com o projeto e aceitou a orientação, o que acabou resultando na aprovação com louvor da dissertação apresentada.

 

Com as pesquisas no campo experimental, eu testava minhas próprias crenças, pois gostava de verificar se as premissas da neurociência (que tanto me seduziram) eram reais, já que a formação em Educação Física mostrava-se tão alheia. Desse modo, na especialização, avaliei o nível percepto-motor em crianças na fase de alfabetização, as quais apresentavam dificuldades em classe; e, na dissertação de mestrado, apliquei um programa de estimulação percepto-motora, verificando se haveria alteração positiva no desempenho do grupo experimental.

 

Ambos os estudos confirmaram as hipóteses: o primeiro mostrou que crianças com maior dificuldade escolar também se apresentaram aquém nas habilidades percepto-motoras; o segundo comprovou que um programa de estimulação melhora significativamente o desempenho percepto-motor comparado às crianças que não participaram do programa.

 

Ao concluir o mestrado, nas buscas por uma colocação no Rio de Janeiro, o classificado do jornal O Globo divulgava na área de Educação Física uma oportunidade tão fantástica. Sim, era o melhor emprego que eu poderia desejar: selecionada em primeiro lugar, em outubro de 1994, um mês após concluir o mestrado, iniciei uma jornada de 24 anos de vida profissional excitante e intensa no Departamento Nacional do Sesc. Um verdadeiro tesouro espalhado por todo o país, o que me permitiu conhecer suas capitais e boa parte do interior.

 

Estudei, ministrei horas incontáveis de cursos presenciais e a distância; participei de congressos e estágios nacionais e internacionais privilegiados, estabelecendo relações especiais com ícones da área como David Gallahue e Victor da Fonseca. Em Londres, realizei intercâmbio para conhecer o legado das Olimpíadas na educação pública; tive a oportunidade de contatar grandes expoentes do país para ministrar cursos e desenvolver projetos que coordenei. Também me envolvi em trabalhos com entidades importantes como ONU, UNESCO, ONGs, universidades, Sesi e órgãos governamentais, enfim, vivências riquíssimas que não caberiam nesta apresentação condensada.

 

Em 2012, participei de uma consultoria junto ao MEC como especialista na consolidação da proposta pedagógica para o ensino fundamental, na área de Educação Física para o ciclo de alfabetização. Essa experiência, curiosamente, permitiu-me amadurecer posicionamentos pessoais que divergiam do movimento dominante na área de Educação Física. Tais convicções se alinham melhor ao momento atual, que procura beneficiar-se dos avanços científicos da neurociência, acolhendo também conhecimentos da biologia, com que meus estudos sempre estiveram ligados pela psicomotricidade.

 

Aliando-se a tudo isso, minha experiência como terapeuta teve início com a conclusão do mestrado. Foi quando a especialista responsável pela avaliação das crianças submetidas ao grupo experimental e de controle da minha dissertação, Niobe Santos, convidou-me para integrar sua equipe. Dois anos depois, em 1996, a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade concedeu-me o título de psicomotricista mediante um dossiê de estudos e experiências práticas elegíveis aos critérios estabelecidos, sendo reconhecida com o título nº 178. No consultório, a busca pela eficácia no desempenho das crianças com dificuldades escolares me manteve ligada à educação em constante compromisso de aperfeiçoamento. De igual modo, tem crescido entre adolescentes e adultos a busca por ajuda em habilidades cognitivas e emocionais.

 

Dentre os estudos que embasaram minha atuação profissional, destaco o curso de Neuropsicologia Aplicada, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2004, e a especialização lato sensu em Terapia CognitivoComportamental pelo CBI – Cognitive Behavioral Institute of Miami.

 

Encerrar o ciclo no Sesc foi motivado pela oportunidade de seguir trabalhando em projetos que demandariam tempo extra e autonomia, para organizar conteúdos e produzir materiais que auxiliem os profissionais na aplicação de uma boa educação psicomotora. Durante a implantação do Aples, constatei essas necessidades nas demandas dos professores inquietos por maior conhecimento da área perceptivo-motora e pelo acesso a materiais específicos para aplicação. Nesse segundo ponto, muito contribuiu o acervo da Guarani Sport, que oferecia tanto literatura didática compatível quanto materiais esportivos, em especial, para o segundo nível do Aples – de 7 a 10 anos.

 

Hoje, a convite da Guarani Sport, unimos esforços para criar exatamente uma complementação do acervo para a psicomotricidade, destinado ao primeiro nível, de 4 a 6 anos. A produção envolve um livro de ampla fundamentação, que será complementado com um livro didático, além do tão sonhado kit de materiais, que servirá à Educação Física, à educação infantil, aos programas esportivos e a todos os programas que valorizem um desenvolvimento infantil de qualidade.

 

Agora, como profissional autônoma, após concluir o trabalho no Sesc Nacional, sigo com gratidão pela honrosa jornada, na certeza de que tudo valeu muito a pena. Com a alegria de uma missão cumprida, registrada nas homenagens institucionais e espontâneas de forma tão calorosa por ocasião do desligamento, iniciou-se então essa nova etapa.

 

Que a força divina ilumine a superação de novos desafios, pois cada oportunidade recebida exige estarmos à altura de seu propósito.

 

 

 

Prof.ª Ms. Rosimeri Pavanati

 

 

Psicomotricista, Professora de Educação Física, Mestre em Pedagogia do Movimento Humano, Especialista em Bases Biomédicas da Atividade Física, Psiconeurologia e Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapeuta em Desenvolvimento Infantil e Performance Humana.

 


 

 

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